terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Quem?

Como expliquei na postagem introdutória, este blog pretende vincar as emoções tristes e por isso quero que o primeiro poema seja de Florbela.
Aproveito para lhe deixar um agradecimento de cumplicidade de tantas horas a sofrer os mesmos sentimentos.

Vamos ao poema:

Não sei quem és. Já não te vejo bem... 
E ouço-me dizer (ai, tanta vez!...) 
Sonho que um outro sonho me desfez? 
Fantasma de que amor? Sombra de quem? 

Névoa? Quimera? Fumo? Donde vem?... 
- Não sei se tu, amor, assim me vês!... 
Nossos olhos não são nossos, talvez... 
Assim, tu não és tu! Não és ninguém!... 

És tudo e não és nada... És a desgraça... 
És quem nem sequer vejo; és um que passa... 
És sorriso de Deus que não mereço... 

És aquele que vive e que morreu... 
És aquele que é quase um outro eu... 
És aquele que nem sequer conheço... 

Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas" 



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