sábado, 26 de maio de 2018

Fanatismo


Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida. 
Meus olhos andam cegos de te ver. 
Não és sequer razão do meu viver 
Pois que tu és já toda a minha vida! 

Não vejo nada assim enlouquecida... 
Passo no mundo, meu Amor, a ler 
No mist'rioso livro do teu ser 
A mesma história tantas vezes lida!... 

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa... 
Quando me dizem isto, toda a graça 
Duma boca divina fala em mim! 

E, olhos postos em ti, digo de rastros: 
"Ah! podem voar mundos, morrer astros, 
Que tu és como Deus: princípio e fim!..." 

Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade" 

quinta-feira, 8 de março de 2018

Será inocência?

Em plena semana da leitura, tropeçando num amontado de livros, nenhum me chama a atenção.. abro um ao acaso e dou com este texto:

«Perdoava-o! Como era possível que a inocente moça nãos e apercebesse da frieza expressa nesta carta? Para as moças educadas religiosamente, ignorantes e puras, é tudo amor mal entram nas regiões encantadas do amor».

Eugénia Grandef, Balzac


Resultado de imagem para inocência

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

A entreter a razão..

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.




quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Incerteza

Nem ilusão, nem
vida. De ilusão,
este amor não tem
os sonhos em vão.

E não tem, da vida,
caminho da morte:
sempre de subida,
sem nuvem que importe.

Assim, não acerto
no estado em que ando:
se sonho desperto,
se vivo sonhando.

Alberto de Serpa, in 'Fonte' 

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Perdi meus fantásticos castelos

Perdi meus fantásticos castelos 
Como névoa distante que se esfuma... 
Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los: 
Quebrei as minhas lanças uma a uma! 

Perdi minhas galeras entre os gelos 
Que se afundaram sobre um mar de bruma... 
- Tantos escolhos! Quem podia vê-los? – 
Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma! 

Perdi a minha taça, o meu anel, 
A minha cota de aço, o meu corcel, 
Perdi meu elmo de ouro e pedrarias... 

Sobem-me aos lábios súplicas estranhas... 
Sobre o meu coração pesam montanhas... 
Olho assombrada as minhas mãos vazias... 

Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas" 


Nota: não perdi perdi castelos nenhuns, apenas perdi a ilusão de os ter...

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Quem?

Como expliquei na postagem introdutória, este blog pretende vincar as emoções tristes e por isso quero que o primeiro poema seja de Florbela.
Aproveito para lhe deixar um agradecimento de cumplicidade de tantas horas a sofrer os mesmos sentimentos.

Vamos ao poema:

Não sei quem és. Já não te vejo bem... 
E ouço-me dizer (ai, tanta vez!...) 
Sonho que um outro sonho me desfez? 
Fantasma de que amor? Sombra de quem? 

Névoa? Quimera? Fumo? Donde vem?... 
- Não sei se tu, amor, assim me vês!... 
Nossos olhos não são nossos, talvez... 
Assim, tu não és tu! Não és ninguém!... 

És tudo e não és nada... És a desgraça... 
És quem nem sequer vejo; és um que passa... 
És sorriso de Deus que não mereço... 

És aquele que vive e que morreu... 
És aquele que é quase um outro eu... 
És aquele que nem sequer conheço... 

Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas" 



Dia Universal da Desilusão

Não, não é cansaço...  É uma quantidade de desilusão  Que se me entranha na espécie de pensar,  E um domingo às avessas  Do sentimento,  Um ...